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terça-feira, 29 de setembro de 2015

TAQUARITINGA


Foram poucos os anos da família na cidade de Taquaritinga, antiga Ribeirãozinho, entre 1897 e 1915 aproximadamente.  Estando por lá eu procuraria:

1. a estação ferroviária de Guariba-SP, cerca de 40 km de Taquaritinga, onde desceram Giuseppe Siggia, mulher e filhos, quando chegaram a sua nova vida.


2. os restos mortais e imortais da Fazenda São Domingos, onde viveram Calógera, Giuseppe Siggia e filhos,

3. também os restos da Fazenda Grama, onde viveram Agnesa, Ernesto Capozzi e filhos,

4. a Capela dos Ss. João Batista e Antônio, no distrito de Jurupema, onde foi batizada a pequena Amélia. Atualmente existem a Igreja de São João Batista (abaixo) e a Capela de Santo Antônio (saída para o bairro Anhumas),


O batismo de Amélia guarda um mistério. Porque foi realizado numa capela tão longe das Fazendas São Domingos e Grama ? Na verdade, no extremo oposto na cidade.


5. daria uma boa volta na região central de Taquaritinga,



6. procuraria o Grupo Escolar onde estudaram minha avó e alguns irmãos


7. procuraria a Igreja de São Sebastião do padre Ruffo citado por Antônio Capozzi, provavelmente  frequentada pelos Capozzi's.

Pediria, na Secretaria, licença para ver os livros de batismos e procuraria o nome de minha avó e meus tios-avós, para saber quando, onde e por quem  foram batizados.

Tudo bem que esse novo prédio é da década de 1940, mas os velhos livros, com certeza, estão lá .... um pequeno guia para visitar a igreja está aqui.


8. procuraria um bom almoço regional,

9. visitaria o Arquivo Público da cidade, para vasculhar mais alguma coisa .... será que tem ??

Fotos:  na primeira foto o autor está nomeado, a segunda é daqui, as demais do Panoramio

Bibliografia sobre a cidade de Taquaritinga disponível na Plataforma Verri, clique aqui.








terça-feira, 8 de setembro de 2015

A IMIGRACAO E O CAFE


Mais um pouco sobre o café, que me persegue .....

Acho  que se não fosse ele, eu não seria eu, meus irmãos não seriam meus irmãos, e provavelmente você não seria você ...

O café chegou ao Brasil, mais precisamente ao Pará, em 1727 pelas mãos da sra. Palheta. Chegou ao nordeste do estado de São Paulo em meados do séc. XIX, mais de cem anos depois. 

O início do cultivo foi no Rio de Janeiro, no sudeste brasileiro e seguiu para o oeste fluminense, no vale do rio Paraíba (região de Vassouras), daí para a região nordeste paulista (região de Bananal), se expandindo ao oeste paulista. 

O mapa abaixo mostra a extensão aproximada do cultivo do café em 1901, disponível na Biblioteca Brasiliana.


A expansão dos cafezais no estado de São Paulo está intimamente relacionada à construção das ferrovias e ao aumento da imigração. 

FERROVIAS

No leste paulista as ferrovias foram construídas depois das fazendas cafeeiras estarem instaladas; seguindo em direção oeste, ao chamado velho oeste paulista, próximo à cidade de Campinas e região, o plantio de café e a construção de ferrovias andaram de mãos dadas; e continuando em direção ao extremo oeste paulista, já no inicio do séc. XX, o chamado novo oeste, as ferrovias precederam as fazendas cafeeiras.

Para saber mais: Carvalho, Diego Francisco de - Café, ferrovias e crescimento populacional: o florescimento da região noroeste paulista, disponível on-line aqui

IMIGRAÇÃO

Quando as idéias abolicionistas tomaram força no Brasil, os grandes fazendeiros começaram a pensar numa alternativa à mão de obra escrava, que fosse igualmente  barata. Claro !!

Num primeiro momento pensaram em "colônias de parceria" e trouxeram imigrantes europeus da Suiça e Alemanha (Olha os meus aí !! Meu trisavô Raimund Jacobi e meu tetravô Wilhlem Behringer, 1852). Para saber um pouco mais sobre colônias de parceria, clique aqui.  

Fracasso total ....

Depois pensaram em chineses, mas a imigração dos coolies também não deu certo.

Então, pensaram em italianos (olha os meus aí, de novo, Giuseppe Siggia) .... que começaram a chegar em 1870.
"O passo decisivo foi dado em julho de 1886, quando famílias importantes da cafeicultura paulista, como os Prado, os Souza Queiroz e os Paes de Barros, fundaram a Sociedade Promotora da Imigração, destinada a incentivar a imigração estrangeira em larga escala para o estado." Daqui.
Essa Sociedade era a responsável pela propaganda e divulgação da demanda de mão-de-obra em cafezais paulistas,  pela seleção e encaminhamento de imigrantes. Ela construiu a Hospedaria dos Imigrantes para acomodá-los temporariamente e também o ramal ferroviário anexo, Estação Braz.

Essa  Sociedade buscava  mão de obra, principalmente italiana, principalmente do norte da Itália e de famílias inteiras, não de homens solteiros. Ela subsidiava as passagens e os primeiros dias de estadia na Hospedaria dos Imigrantes. Esse perfil era o oposto do que ocorreu nos EUA e na Argentina, que não subsidiavam e aceitavam homens solteiros, sem as famílias. Como escreveu  Truzzi :
"... papel ativo da Sociedade Promotora da Imigração ... arrebanhar famílias próximas da miséria e dispostas a cruzar o Atlântico com passagens pagas pelo estado
Cerca de 60 % dos italianos chegados entre 1888 e 1914 tiveram passagens pagas pelo estado, eram imigrantes subsidiados. 

E porque esses italianos queriam imigrar ?
"Enquanto o Brasil precisava de braços para a lavoura, a Itália enfrentava um grave problema de superpopulação nos campos e crise de desemprego. Nesse momento, foi a extrema miséria, mais que o desejo de "fazer a América" a motivação que levou os italianos a abandonar a terra natal". Martins
Segundo o IBGE entre 1870 e 1920 mais de 3 milhões de italianos entraram no país, correspondendo a 42% de toda imigração brasileira. Em 1900 cerca de 20% da população paulista era estrangeira. Para saber mais clique aqui.

O café foi, e ainda é, importante para a economia brasileira,  atualmente o país é responsável por cerca de 30% do café mundial.



Fontes:

Além das já citadas,

Holloway, Thomas - Imigrantes para o café, 1984, São Paulo, Ed. Paz e Terra

Martins, Ana Luiza - Império do café, a grande lavoura 1850-1890, São Paulo,  1999, Atual, coleção História em Documentos,   disponível on-line aqui. (Muito bom !!!)

Mazutti, Sílvia Maria - Italianos em formação, UFSCAR online aqui

Truzzi, Geraldo - Identidade étnica entre italianos no mundo rural paulista, online, aqui.

Uma visita ao Museu do Café, em Santos, aqui.

Wikipedia, disponibiliza vários links.

Para fotos sobre o tema, veja aqui

 

terça-feira, 1 de setembro de 2015

NA FAZENDA SÃO DOMINGOS


Um causo, acontecido na Fazenda São Domingos em Ribeirãozinho, perto de 1915. Sobre um carro de boi assombrado, contado por Horácio Ramalho, extraído daqui. Será que os Siggia ainda estavam lá ? Pode ser .....

"A Fazenda São Domingos empregara, lá pelos idos de 1915, um trabalhador que já estivera nas guerras da Itália e ficara alterado das faculdades mentais.
Era chamado de Rafaelão por sua desmesurada altura. Arredio, falava sozinho, resmungando com voz gaga, entrecortada, grossa e cava. Ninguém queria graça com ele, receavam-no, apesar que quando tentavam o diálogo ou brincadeira, o homenzarrão mais se retraisse. Um dia, como sempre ninguém sabe por quê, Rafaelão pegou um revólver e ao ver passar o preto-velho de nome Maceió, gritou:
- Maceió! Se aprepara, peste! Vou te matar! E atirou mesmo, ferindo-o no braço. Maceió correu para a sede da fazenda procurando o patrão José Ramalho. Este mandou-o tratar e avisar a polícia. No mesmo dia, o sargento do destacamento veio em pessoa para prender o Rafaelão que desaparecera na invernada. Bulha que te bulha, o sargento o acurralou num resto de mata, lá em cima de um pé-de-pau. Deu-lhe voz de prisão. Veio um mundo de bala de volta. Tiro vai, tiro vem, Rafaelão acabou tombando, morto de fuzil Mauser, antes de bater no chão.
Foi um deus-nos-acuda.  José Ramalho mandou um carro de boi buscar o cadáver para levar à cidade. O carreiro foi, fez e voltou, chegando tarde da noite, meio assustado com a carga que transportara. Seu carro sempre fora un dos melhores cantadores da fazenda, de tom baixo, melodioso, contínuo, com o que os bois andavam cadenciados, no passo certo, sem desmandos ou estropelias Ouvia-se de léguas, sendo por todos admirado.
Pois bem: diziam os carreiros e passou-se de geração a geração, que depois dessa viagem funerária tudo mudara... E faziam o diabo para não ter de usar esse carro de boi. Sem motivo concreto, ele, que pelas estradas nunca deixara de encantar com o canto firme, continuado, grave e harmonioso, até em bacada bruta, passara a resmungar baixo, entrecortado, gago, um canto grosso resmungado, parecido com o monólogo desvairado do Rafaelão. " 

Outra história, da mesma Fazenda, do mesmo site, narrada pelo mesmo Horácio Ramalho, antigo carreiro e fazendeiro.

"Na Estrada de Ferro Araraquarense, íamos uma vez da Fazenda São Domingos para a estação com cinco carros de boi carregados de café. Arranchamos perto da Fazenda Figueira. Não tinha muita mata, mas era um pé de serra, de baixada, plano e bem achegado. Fizemos a comida com os caldeirões pendurados nos argolões dos carros pois ameaçava chuva. E veio. Veio de afogar o mundo. Assim que foi embora, o pessoal reuniu-se para a comida."
"Na hora do licor de jabuticaba, pertinho-pertinho ouvimos o esturro forte de uma onça... Largamos tudo, até a garrafa de licor e as canecas, subimos de avoada num dos carros, o Abel, o Amâncio, enfim, todo o povo. Outro esturro, e os bois rebentaram as peias e desandaram no mundo, tropelão desarvorado." 
"Bem na nossa frente, apareceu a pintada, de patonas tortas, calma e dona do seu passo. Veio vindo, comeu das comidas e, espanto: bebeu, com lambidas de quem entende do assunto, o licor de jaboticaba das canecas e o que caía da garrafa. A gente já estava pensando em jogar o preto Amâncio pr'ela, pois o povo diz que onça gosta de carne de africano e vem pelo faro. Mas o Amâncio puxou um garruchão 44, rosnando que se cristão chegasse cristão que matasse, e a gente mudou de idéia. Dissemos que atirasse nela, mas ele disse que a garrucha era só de matar gente. Foi que a onça, depois de comer e beber o de fartar, se ajeitou na trilha e lá se foi num passo meio tropeçado, andando meio de lado, miando meio enrolado... Coisa assim, só pode ser reinação do Perneta!"



terça-feira, 25 de agosto de 2015

E ERNESTO CAPOZZI ERA .....


CARPINTEIRO !!!

E já que estamos falando de fazendas vamos continuar no assunto, porém mudando de personagem. Por ocasião do nascimento de José Capozzi em 1905 na Fazenda Grama, em Taquaritinga, o pai Ernesto Capozzi, compareceu ao cartório e declarou em sua qualificação:
"... lavradores, residentes nesta vila ..."
Por ocasião do nascimento do  filho Thomaz, em 1907, um empregado da Fazenda Grama, na qualificação do pai, declarou:
"... aquele artista, residentes neste município ...."
Por ocasião do nascimento do filho Alfredo I, em 1911 na mesma Fazenda Grama, um empregado da fazenda declarou que o pai da criança era:
".... carpinteiro, residentes neste distrito ...."
Artistas eram os carpinteiros. Ernesto chegou ao Brasil carpinteiro, era  falegname desde a Itália. Nas fazendas paulistas, a carpintaria era atividade certa, muitas possuíam serrarias próprias, uma maneira de se auto gerir. Sobre as serrarias e outras oficinas, escreveu Benincasa:
"Eram oficinas essenciais ao funcionamento das fazendas. Ali se fabricavam e davam manutenção  aos carros de boi, carroças, carroções, ... Ali se fabricavam as janelas, portas, se aparelhava o madeiramento para a estrutura das edificações e sua cobertura e o assoalho rudimentar." (v.1)
  
Serraria e marcenaria da Fazenda Concórdia em Itú, foto de Vladimir Benincasa.

Em carta ao editor do jornal Cidade de Taquaritinga em agosto de 1981, Antônio, filho de Ernesto Capozzi, escreveu sobre o pai:


Assim, acredito que, em algum momento da sua vida, antes de vir para a cidade de São Paulo, Ernesto Capozzi saiu da Fazenda em que residia e passou a exercer sua atividade de forma independente na região urbana do município.

No entanto, Ernesto não foi citado no verbete Taquaritinga do Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial de 1906, aqui, tampouco no de 1912, veja aqui.

O livro Cem anos de Tradição de Luiz Carlos Beduschi, que trata da história da Loja Maçônica Libero Badaró de Taquaritinga, cita nosso bisavô Ernesto Capozza. Onde ? Quando faz referência à construção da Santa Casa de Taquaritinga em 1910 !
"A motivação e o entusiasmo contagiava a todos, visto que em menos de vinte dias, as propostas apresentadas para a colocação de assoalho, forro e janelas foram analisadas. das três propostas apresentadas, foi considerada vencedora a formulada pelos senhores Miguel Tarsitano & Ernesto Capizza (sic). Fica estabelecida a data de 15 de outubro para conclusão dos serviços, que serão fiscalizados pelos senhores Victorio Frontini e Joaquim Venâncio Cardozo." (pg. 66)
Ano cheio !! O senhor Miguel Tarsitano não era de Taquaritinga, era de Catanduva-SP, a 70 km. da cidade, onde comerciava madeiras e materiais de construção em geral, veja aqui, no Almanak Laemmert-RJ de 1908, provavelmente fornecedor de matéria-prima para nosso querido carpinteiro.



Após  mudar para a cidade de São Paulo, Ernesto foi comerciante. Veja abaixo no seu Atestado de Óbito.


Seu neto Sérgio Capozzi (filho de José), diz que seu irmão Ernesto (o filho mais velho de José) "lembra de ter visto o vovô lidando com rolos de tecidos e que seguramente na década de 40 ele já não trabalhava. Eu também me lembro vagamente de meu pai mencionar que o vovô mexia com tecidos quando morou na rua Conselheiro João Alfredo, na Móoca."

O bairro Móoca era cheio de fábricas de tecidos. A ind. textil foi das mais importantes no início da industrialização da cidade de São Paulo, afinal foi uma das primeiras indústrias a serem mecanizadas. Além disso, a sacaria era (e é) importante para o transporte do café. No final do séc. XIX várias indústrias têxteis se estabeleceram no próprio bairro e adjacências, entre elas:


Foto Douglas Nascimento, daqui

Tecelagem Labor, na rua da Móoca, foto acima


1924, Cotonifício Crespi, acervo Fund Energia e Saneamento, foto daqui

Cotonifício Crespi, na rua Javari, foto acima

Tecelagem na rua Orville Derby

Tecelagem Três Irmãos Andraus

Fábrica Santana

Tecelagem Mariângela, do Grupo Matarazzo

Alpargatas

Cia Nacional de Tecidos de Juta, no Belenzinho

Fontes:

Livros  do Registro Civil de Taquaritinga e São Paulo

Benincasa, Vladimir - Fazendas Paulistas, arquitetura rural no ciclo do café, veja aqui

Beduschi, Luiz Carlos - Cem anos de Tradição, Taquaritinga: Augusta e respeitável Loja Simbólica "Libero Badaró", 2000, 284 p.

jornal Cidade de Taquaritinga, 1981

Sobre as tecelagens no bairro da Móoca: Revista Minha Cidade, Site São Paulo Antiga

Gunn, Philip e Correia Telma de B. - A industrialização brasileira e a dimensão geográfica dos estabelecimentos industriais

Obrigada Seomara, Sérgio e Ernesto Capozzi !!


terça-feira, 18 de agosto de 2015

COMO ERA VIVER NUMA FAZENDA DE CAFÉ ? PARTE 2


Não encontrei nenhuma referência às fazendas em que viveram os Siggia (Fazenda São Domingos) e os Capozzi (Fazenda Grama) em Ribeirãozinho (Taquaritinga), mas encontrei referências a outras fazendas cafeeiras da região.
.
Abaixo, planta da Fazenda Santana em São Carlos (SP), daqui.



Grande parte das fazendas de café paulistas foram formadas a partir das antigas fazendas de cana-de-açúcar. Uma fazenda cafeeira, mais especificamente, contava com:

1. Tanques para lavar e terreiros para secar o café
2. Edificações do beneficiamento, como tulhas e casas de máquinas, onde os grãos eram armazenados e  beneficiados
3. Depósito, oficina, serraria
4. Colônias para os trabalhadores, nas mais antigas as senzalas
5. em algumas delas, Capela e Escola
6. Casarão
7. Casa do administrador
8. Armazém
9. Pomar, horta, galinheiro, estábulos, ......

A colônia era o agrupamento  de casas onde residiam os trabalhadores, os camponeses, os nossos. Eram casas pequenas com sala, dois quartos e cozinha. Segundo Benincasa
"São casas, em geral, geminadas, ou formando renques com maior número de casas, telhados com duas águas caindo para a frente e aos fundos da edificação.  Por vezes é acrescentado um cômodo na parte posterior, ocupado pelas cozinhas, quase sempre sem banheiros internos. A origem dessa configuração é obscura; podemos pensar em adaptação da choça africana" (v.1, pg.166)
" ... casas pequenas e singelas, sem forro, com piso de terra batida que, aos poucos iam sendo revestidos de tijolos ou uma  camada fina de cimento, contendo o básico a uma vida cotidiana que se dava muito mais em ambientes externos que internos. As lides diárias estavam voltadas aos cuidados com as pequenas criações de animais, ao cultivo das hortas e ao trabalho nas fazendas, tanto de homens, quanto de mulheres e crianças. A casa de colônia era, antes de tudo, um abrigo, e não local de fruição de espaços, e as atividades de preparo de alimentos e descanso eram as suas principais atribuições."(v.1)


Casas de colonos na Fazenda Atibaia em Campinas.


 Casas de colonos na Fazenda Iracema em Campinas.
As fotos são de Vladimir Benincasa, veja aqui.

Numa  pequena vila desse tipo provavelmente viveram os Siggia logo que chegaram ao Brasil, na Fazenda São Domingos em Taquaritinga. Numa casa simples como essas, já em outra Fazenda da região, a Fazenda Grama,  nasceram os filhos mais velhos de Agnese Siggia e Ernesto Capozzi, Amélia, Luiza minha avó, Antônio, José, Thomas,  Albino.

Segundo o pesquisador Milve Peria, de Taquaritinga, essas ´duas fazendas eram produtoras de café até o início do séc. XX, atualmente as estruturas da época foram substituídas, os proprietários são outros e o café não existe mais. Elas são localizadas na região leste de Taquaritinga.

Para saber um pouco mais sobre José Ramalho, clique aqui.

Sobre as fazendas de café paulistas, o trabalho de Vladimir Benincasa é primoroso, detalhista e fartamente ilustrado. Apesar de ser  uma tese de doutoramento possui linguagem leve e acessível. Para quem se interessar pelas velhas fazendas cafeeiras, recomendo a leitura, são dois PDF's disponíveis aqui.

Quem quiser visitar fazendas históricas, antes que acabem, algumas delas estão adaptadas ao turismo rural, veja aqui.

Para saber mais sobre a história de Taquaritinga, clique aqui, o site Nossa Taquaritinga, do sr. Milve Peria, a quem agradeço muito pelas informações que me passou.

Outro site de conteúdo interessante é o do jornal  Tribuna de Taquaritinga, clique aqui.









terça-feira, 11 de agosto de 2015

COMO ERA VIVER NUMA FAZENDA DE CAFÉ ? PARTE 1

Não devia ser fácil, não !

Em primeiro lugar, muitos imigrantes não eram de origem rural. Como o nosso Giuseppe Siggia que era pedreiro e seu cunhado Emanuelle Cosentino que era sapateiro ... eles não deviam ter muita intimidade com a roça. 

A estrutura e a organização do dia a dia eram completamente diferentes da que estavam acostumados.
´

Quando chegavam, os colonos firmavam um contrato com os proprietários, onde cada família de imigrantes deveria cuidar em média de 5.000 pés de café. Para famílias numerosas e com homens jovens era mais fácil ...  Para isso recebiam um pagamento.  Na época da colheita das cerejas existia um segundo pagamento, nessa época toda família trabalhava, inclusive as mulheres e crianças. O pagamento era feito por alqueire de grãos coletados. Os imigrantes também recebiam pagamento a parte caso trabalhassem no beneficiamento ou transporte do café.


Colono recebendo pagamento, foto do livro de Holloway.

Os fazendeiros permitiam o cultivo de milho, feijão, arroz, batatas, ... e também alguma criação, para consumo próprio. Se houvesse excedente, alguns fazendeiros permitiam que repassassem  para as "vendas" da região. Mesmo assim, em alguns casos, os imigrantes estavam sujeitos a ...
"dependência econômica do Armazém da fazenda e consequentes endividamentos progressivo, falta de assistência médica ou religiosa, proprietários e administradores despóticos e isolamento imposto pelo regime de trabalho." Truzzi
Os lavradores anteriores eram os escravos que  recebiam um tratamento bastante desumano. Porém, alguns fazendeiros, acostumados, tratavam o imigrante da mesma forma, o que gerava  problemas.
"Em um dos episódios mais sérios e de ampla repercussão na colônia italiana, o próprio irmão do presidente Campos Salles tombou sem vida após a reação de um colono que procurara defender sua família das investidas do administrador contra sua irmã, em uma fazenda em Analândia no ano de 1900." Truzzi
Essas dificuldades faziam com que os imigrantes mudassem de fazenda (será que algum dos nossos mudou ?), mudassem para um centro urbano (Ah!  Sim, isso eles fizeram), mudassem de país (Argentina, por exemplo, não, isso não fizeram), ou retornassem à velha pátria (Isso fez nosso trisavô Giuseppe Siggia).


Café, de Portinari, natural de Brodowski na região de Ribeirão Preto, acervo MNBA no Rio de Janeiro.

A primeira foto é daqui

Fontes:

Holloway, Thomas - Imigrantes para o café, 1984, Paz e Terra.

Truzzi, Oswaldo - Identidade étnica entre italianos no mundo rural paulista, 2013, disponível online em pdf, aqui


terça-feira, 4 de agosto de 2015

A CHEGADA DOS SIGGIA NA FAZENDA DE CAFÉ


Consta no livro da Hospedaria que a família foi encaminhada para a fazenda de José Ramalho & Irmão em Guariba, veja aqui.

Porém, não encontrei referência ao fazendeiro José Ramalho em Guariba e sim na região de Ribeirãozinho, atual Taquaritinga. 


Taquaritinga 1917

Mapa (modificado), acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo, clique aqui.

A fazenda de José Ramalho e Irmão na região de Taquaritinga era a Fazenda São Domingos, veja aqui.  Provavelmente a família foi encaminhada à estação ferroviária de Guariba porque era a mais próxima de Ribeirãozinho, que na época (1897)  ainda estava fora da malha ferroviária.

Então, da estação Guariba a família foi para a fazenda São Domingos, em Ribeirãozinho, talvez num carro de boi ou numa carroça.


Mapa aqui

Assim, a família desembarcou do vapor San Gottardo em Santos, embarcou numa maria-fumaça com destino a Hospedaria dos Imigrantes, localizada na estação Braz da The São Paulo Railway. Permaneceu por algum tempo na Hospedaria, de onde partiu para a estação Guariba. 


Estação de Guariba, 1915, foto daqui.

A estação de Guariba é de 1892, fazia parte do ramal de Jaboticabal da Cia Paulista.  Com a chegada do trem cresceu o vilarejo, hoje a cidade de Guariba.

A estação de Ribeirãozinho é de 1901, pouco tempo depois da fundação da cidade. Fazia parte da linha tronco da Estrada de Ferro de Araraquara (EFA).

Taquaritinga foi elevada à condição de município em 1892, anteriormente o povoado pertencia à comarca de Jaboticabal.

Fontes:

Site Estações Ferroviárias do Brasil, excelente !

Martins, Ana Luiza - Guariba, 100 anos









terça-feira, 28 de julho de 2015

A VIAGEM DA FAMILIA SIGGIA


A família de Giuseppe Siggia embarcou no porto de Nápoles, no navio San Gottardo, em 16.09.1897, com mais 904 italianos (total 912 imigrantes). Chegou ao porto de Santos em 08.10.1897, 22 dias depois. Giuseppe mais a mulher Calógera, mais 5 filhos entre 3 e 20 anos, entre eles Agnesa, e mais uma sobrinha de 23 anos. 

A sobrinha Rozario Siggia pode ser esta aqui, nascida em Siculiana dia 7 de novembro de 1873, filha de Maria Latera e Serafino Siggia.

Desembarque da família no porto de Santos (parte):



Veja a lista completa aqui, os Siggia estão na pg 18. Nesse mesmo navio vieram 5 famílias de Siculiana, entre elas Gagliano, Graceffo, Tacci, ... cerca de 30 pessoas.


sem data, o navio San Gottardo chegando em Santos

1939 - Lasar Segall - Navio de imigrantes - aqui
" ... a partir de 1885 o número de italianos procurando passagem para o Rio de Janeiro ou Santos começou a se tornar importante, o que levou muito naturalmente as poucas armadoras italianas a fazerem escalar mais freqüentemente seus navios nesses dois portos. 
Em 1888, a La Veloce estabeleceu uma linha específica para o Brasil, servida por quatro vapores de pequenas dimensões: o Carlo R, o Fortuna R, o Regina e o San Gottardo." Daqui

Mais sobre o vapor San Gottardo, leia aqui e aqui.

Quer saber como eram as viagens transatlânticas desses imigrantes para o Brasil ? Clique aqui, livro de Angelo Trento, "Do outro lado do Atlântico",  procure pg. 44 e seguintes.

Desembarcaram. Olha o Giuseppe lá .... no meio da multidão, olhando pra esposa Calógera, contando as crianças, assustado com o calor abafado e úmido ....

De  Santos, numa maria-fumaça da The São Paulo Railway Company, a família subiu a serra. Já em São Paulo, se instalou, num primeiro momento, na Hospedaria dos Imigrantes, na Estação Braz. O check-in na hospedaria está aqui, o original aqui (em vez de Gioberto, leia-se Giacinto !!).



A Hospedaria dos Imigrantes foi construída pela Sociedade Promotora de Imigração, essa mesma sociedade foi responsável pela construção de um ramal ferroviário, a estação Braz que era exatamente ao lado da própria Hospedaria. 

Ela recebia os recém chegados, era misto de pouso e agencia de empregos. Os imigrantes eram assediados por todos os lados pelos representantes dos grandes fazendeiros de café do interior paulista, que buscavam a mão de obra mais barata possível para seus patrões. 

Para saber mais sobre a Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo, clique aqui e aqui.

Outras fotos da hospedaria, aqui.

O site do Museu da Imigração, que está localizado no prédio da Hospedaria, é este aqui.  Se você ainda não conhece o Museu, sugiro um passeio ... vale a pena !!!


Hospedaria dos Imigrantes, SP, 1905, Wikipedia





Organograma sem data, disponibilizado por
O. Massucato no grupo Facebook Memória Paulista


terça-feira, 21 de julho de 2015

SICULIANA



Siculiana é localizada na parte oeste da ilha da Sicília, tem cerca de 40 km² e atualmente cerca de 4.600 habitantes. Quando os nossos imigraram (1897) eram perto de 7.000.  

Lugar de achados arqueológicos datados do paleolítico, vestígios árabes (Suq-al-Jani significa mercado do João),  lugar mítico de gregos (a Camico do rei siciliano Cocalos), celeiro dos romanos (Siculi Janua, porto da Sicília). A construção mais antiga da cidade é o Castelo de Chiaramonte, do séc. XIV, construído sobre ruínas árabes, ao redor do qual se formou o feudo e a cidade. Leia mais aqui e aqui.


Prá quem não conhece (Eu !!!) eis o Castelo Chiaramonte,  que com certeza os Siggia e os Cosentino conheceram ....


Está vendo aquela pontinha do lado direito da foto panoramica (a segunda foto) ? É a Chiesa di San Leonardo Abate, em cujo interior se encontra a capela dedicada à Santa Cruz, padroeira da cidade. Provavelmente a igreja onde foram batizados Agnese e seus irmãos, os Siggia mais velhos,
alguns Cosentinos ..... (a confirmar).


Santuário Santíssimo Salvatore Crucifix (séc. XVII), para saber mais clique aqui.

Esses devotos italianos .... minha trisavó Calógera (mãe de Agnesa Siggia Capozzi) teve uma irmã com nome de Maria Crocefissa !!

Foto da Igreja daqui.


Em todo o caso, para saber mais sobre a cidade veja na Wikipedia, que também traz alguma coisa sobre os mafiosi. Siculiana é a cidade de origem do clã Cuntrera-Caruana da Máfia Siciliana (Cosa Nostra). Um pouco mais, leia aqui. Outras fotos da cidade aqui.

Um dos distritos de Siculiana, é a região costeira Siculiana Marina, veja algumas fotos aqui.


Fotos; daqui, da Wikipedia, daqui e daqui.


terça-feira, 14 de julho de 2015

OFÍCIOS EM SICULIANA


Em Siculiana, na Sícilia, quase todos meus ancestrais pesquisados viviam na região urbana e exerciam os mais variados ofícios.  Não eram camponeses, atividade que certamente, em algum momento anterior, a família já tinha exercido. 

Calógera Cosentino Siggia, a mãe de Agnese Siggia Capozzi, era filatrice (fiandeira). A fiação pode ser feita com o fuso ou com a roca. Não sei com qual instrumento as mulheres Siggia faziam fios .... penso na maior probabilidade de ser usado o fuso .... 

Não apenas ela exercia essa atividade, também suas cunhadas, Maria Antonia Santalucia e Vicenza Geraldi e mais sua parente Maria Latera eram filatrices. Acredito que era uma atividade bastante comum entre as mulheres com crianças, já que podia ser exercida em casa.
"As mulheres camponesas fiavam e teciam a lã, para satisfazer as necessidades da família e, em certas regiões mais marcadas pela economia mercantil, para os comerciantes de lã das cidades" J. Le Goff, O Homem Medieval
Será, no caso de Calógera, irmãs e cunhadas, um resquício da vida rural ??

Foto daqui


foto via Flickr

foto daqui

do álbum Antichi Mestieri di Sicilia,
  grupo La Sicilia, FB

Para saber um pouco mais sobre a arte de fiar, clique aqui e aqui. Quer saber como se usa um fuso ? Veja aqui:


O marido de Calógera, Giuseppe Siggia, era muratore (pedreiro). Também o pai de Giuseppe, Giacinto Siggia, era pedreiro.


Muratore, por Giovanni Sottocornola, 1891, Milão, Galeria d'Itália, daqui.

Salvadore Cosentino (pai de Calógera Cosentino e avô de Agnesa Capozzi) e seus filhos Calógero e Emmanuele Cosentino (este último também imigrou para o Brasil) eram calzolaios (sapateiros). Naquela época, o sapateiro confeccionava calçados.

Foto daqui

Apesar de, nesse caso, exercerem pequenos ofícios em região urbana, quanto mais antiga a árvore de costado, mais camponeses encontrarei. Ou seja, provavelmente a maioria dos avós e bisavós de Giuseppe Siggia e Calógera Cosentino eram do campo, contadinos







terça-feira, 7 de julho de 2015

A MAE DE AGNESA, CALÓGERA COSENTINO



Calógera Cosentino nasceu em 1851, também em Siculiana. Era filha de Salvatore Cosentino e Maria Modica que casaram em Siculiana  dia 29 de outubro de 1839, veja aqui

Esse casal teve pelo menos dez filhos, para ver alguns documentos clique aqui.

Angela, nascida em 20 de setembro de 1840 e falecida em 19 de agosto de 1841,

Calógero, nascido em 24 de junho de 1842, casou com Vicenza Geraldi em 19 de agosto de 1875, veja aqui. Com Vicenza teve pelo menos um filho, Salvatore Cosentino dia 30 de agosto de 1876, veja aqui.

Angela, nascida em 9 de agosto de 1845,

Emmanuele, nascido em 25 de dezembro de 1847, que imigrou para o Brasil, falaremos dele em outro artigo,

Biaggio, nascido em 21 de janeiro de 1850, veja aqui

Calógera, nascida em 1851, minha trisavó, que imigrou para o Brasil com o marido Giuseppe Siggia  e filhos,

Maria Crocefissa, nascida em 2 de maio de 1854,

Maria Assunta, nascida em 14 de agosto de 1857, provavelmente faleceu precocemente,

Maria Assunta, nascida em 21 de agosto de 1859,

Carmelo, nascido em 10 janeiro de 1861 e falecido em 21 de dezembro de 1861,

Assunta, nascida em abril de 1866, veja aqui.


Em 29 de junho de 1871, Calógera Cosentino casou com Giuseppe Siggia em Siculiana, veja aqui.


"L'anno mille ottocento setenta uno il di venti nove del mese giugno alle ore otto promediane nella casa de Calógera Cosentino cita nella strada Biagge (?) ...noi, Gerlando Moscato e officiale de l'Estato Civile de comune de Siculiana ... per procedere alla celebracione del matrimonio ... Giuseppe Siggia e Calógera Cosentino la quale      per tutto ...il certificato medico ... de una parte ...Giuseppe Siggia, celibe, de anni trentatré, muratore, nato, domiciliato e residente In questa comune ...figlio de Giacinto defunto muratore (pedreiro), domiciliato allora qui ...e de Agnesa Gagliano, filatrice, domiciliata in questa ...dall otra parte Calógera Cosentino, de anni venti, celibe, filatrice, nata, domiciliata e residente qui, figlia di Salvatore defunto calzolaio (sapateiro), domiciliato allora qui e de Maria Modica domiciliata com ella eguale ... a la presence de testimo    indicare que ... alla publicacione del matrimonio"
(A transcrição acima é de parte do registro do casamento de Calógera e Giuseppe, feita por mim, portanto, passível de muitos erros !! Se você tiver mais habilidades com o idioma italiano, aceito toda contribuição ! )

Para saber sobre os filhos de Calógera Cosentino e Giuseppe Siggia, clique aqui e aqui.

Para saber um pouco sobre Giuseppe Siggia, marido de Calógera, clique aqui (postagem anterior).

Ela imigrou para o Brasil em 1897 com o marido, os filhos e mais uma sobrinha, veja aqui. No Brasil passou a ser conhecida como Luiza.

Antes de 1909, seu marido Giuseppe voltou para Itália, onde morreu. Assim como a filha Agnesa Capozzi e família, Calógera mudou para São Paulo. Talvez acompanhando algum dos filhos, talvez sozinha (a pesquisar).

Ela faleceu na cidade entre os anos de 1932-1938 (a pesquisar), tendo sido sepultada no cemitério do Brás.

Para desembaralhar os miolos, olhe o gráfico abaixo:


Até onde pesquisei a família de Calógera Cosentino, NÃO era de Siculiana até a raiz !! Falaremos sobre isso em outros artigos.