terça-feira, 15 de setembro de 2015

TAQUARITINGA NÃO SE EXPLICA; SE AMA

Carta do leitor Antônio Capozzi ao jornal Cidade de Taquaritinga, provavelmente publicada nos primeiros dias de setembro de 1981. Através dela podemos conhecer um pouco da Taquaritinga de nossos avós ou pais.


"Taquaritinga não se explica; se ama"
"Todos nós achamos que ninguém gosta mais de Taquaritinga do que nós mesmos. Em conversa em nossas falas públicas, temos dito sempre isto, o amor que temos por nossa terrinha é tão grande que parece ser só nosso, mas não, ele é de todos como também de todos é esse solo bendito. Esse amor provoca muita coisa como por exemplo esta carta, que transcrevemos na íntegra, como uma homenagem àqueles que nem sequer acreditamos existir, mas que reuniram doces lembranças, acalentadas saudades como, temos certeza, estas que motivaram um homem de 77 anos a se corresponder conosco".
"São Paulo, 24 de agosto de 1981, Ilmo Senhor Dr. Hamilton Roberto de Aiélo, DD Diretor do Jornal CIDADE DE TAQUARITINGA"
"Prezado senhor,  Em minhas mãos, dádiva de meu velho e tradicional amigo Luiz Falconi, e com reportagens preciosas dedicadas a mais um aniversário de nossa cidade, um número de vosso brilhante CIDADE DE TAQUARITINGA com referências eloquentes e comoventes sobre a festiva efeméride."
Dia 06 de agosto é o aniversário de Taquaritinga e o jornal fez uma edição especial, comemorativa. Antônio Capozzi, nosso querido tio Tonico, recebeu um exemplar através de seu amigo Luiz Falconi. Antônio e Luiz Falconi foram amigos desde a infância, ambos estudaram na mesma escola, no Grupo Escolar de Taquaritinga. 
"Permita apresentar-me; Antônio Capozzi, Taquaritinguense nato, com 77 anos de idade, filho de Ernesto Capozzi ou Capozza (um dos desbravadores dos primitivos rincões da velha Ribeirãozinho) e que, por circunstâncias próprias da vida, ausente dessa cidade, no entanto sem esquece-la, desde os longínquos anos de 1915 ou 1916."
"Meu progenitor, proprietário de carpintaria e serraria e construtor de inúmeras propriedades em todo esse município, transportou-se para esses rincões, vindo de sua bela Itália, em companhia de Jacomino Pagliuso, lá pelos anos de 1896 e, daí, em diante, integra-se de corpo e alma à nova terra e participa em todos seus movimentos, políticos ou não, que surgiam a todo instante." 
 "Meu pai pertenceu aos extraordinários tempos do gatilho e do chumbo. Pertenceu aos tempos dos famigerados Vaca Brava e Dioguinho, aos tempos em que as mortes e emboscadas primavam em nossa terra, aos tempos dos Mendonça, dos Zacaros, Mezearras, Acorsi, Zoratti e muitos outros que no momento fogem à minha memória."
Como escreveu o próprio leitor Antônio Capozza, a cidade viveu tempos de lutas e tiroteios. Em 1902, um ano antes do nascimento do querido leitor,  Taquaritinga foi palco de  um acontecimento histórico interessante. Insatisfeitos com a proclamação da República, alguns coronéis e cidadãos se rebelaram, queriam a volta da monarquia. O movimento durou apenas um dia e ficou conhecido como a Revolta de Ribeirãozinho, para saber mais, clique aqui. Entre os líderes da revolta estava um Mendonça. Realmente, eram os tempos do pai de Antônio.

" .... E todos naquele pequeno amontoado de casas (Vila de Ribeirãozinho), homens e mulheres, diziam isso com um misto de respeito e pânico. Galinha era para eles sinônimo de opressão, de horror, smente tinham um desejo : fugir, escapar para não levar uma formidável surra e serem obrigados a contar o que se passava na Vila. Tinham medo, porque quando fosse embora o galinha lá estariam os bandoleiros famosos como o Vacabrava e o Canguçú. Era a atmosfera do  tempo. Ou banditismo ou a implacabilidade das capturas." Figueiredo, pg.19.

Para saber mais sobre os tempos de bala em Taquaritinga sugiro o livro Eu sou a Lei: Tenente Galinha, caçador de homens, de Adherbal Oliveira Figueiredo. Comprei o meu na EstanteVirtual.
"Pertenceu aos tempos das brigas das bandas de música, lá pelos anos de 1912 ou 1913, banda do maestro Stabile e banda do maestro Bachega, que se degladiavam a tiros em plena rua do Comércio ou em outro lugar qualquer que se encontravam."
"E que mais poderei lembrar, hoje, quando a saudade me dilacera a vida ? Direi alguma cousa mais se V.Sa. permitir, muitas foram omissas em suas notas comemorativas da aniversariante, ei-las:"
"Lembro, 1906 ou 1907, restos de cemitério antigo localizado onde hoje acha-se o jardim principal da cidade; lembro-me dos lampiões propulsionados a querosene, dos Hermistas e Civilistas lá pelos anos 1912; lembro-me das escolas públicas, dos professores Galina, Herculano e D. Quininha; lembro-me das populares figuras de Marchetti e Rimondinho, que pelas ruas de nossa cidade a todos alegravam; lembro dos primórdios de 1913, a surgir o primeiro automóvel em nossa cidade e que pertencia a um dos Acorsi daqueles tempos; lembro-me, mais ainda, em 1914, no então campo de futebol pertencente aos Pallas, a maravilha até então nunca vista, um minúsculo avião francês a realizar um pequeno vôo para gáudio e estupefação de nossa gente; mais ainda, um balão tripulado a subir e que nos deixaram estupefatos com o que víamos."
 "E das lutas políticas, o que dizer ? Mortes e mais mortes, tiroteios e mais tiroteios, lutas políticas, entre as quais me lembro uma em que foi vítima um médico de nacionalidade italiana, Dr. Zacaro."
"O que mais ? Lembro-me em 1914 a inauguração do nosso hoje velho grupo escolar, cujo diretor foi Dalmo Braga; ..."
Sobre esse Grupo Escolar, sobre alguns alunos e professores, falaremos em outro artigo.
"... lembro-me do lendário padre Rufo ..."
 Padre Ruffo, que batizou a filha Amélia de Ernesto, na Capela dos Ss. João Batista e Antônio no distrito de Jurupema, no ano de 1902, veja aqui. Provavelmente batizou outros tantos Capozzi's.
" ... e mais ainda, uma maravilha das arábias, uma estrada com trilhos de madeira a ser percorrida por automóveis devidamente adaptados em direção a Jaboticabal e lembro ainda das raias para corridas de cavalos."
 A estação ferroviária de Ribeirãozinho é de 1901, alguns anos depois da fundação da cidade. Fazia parte da linha tronco da Estrada de Ferro de Araraquara (EFA). Para saber mais sobre essa estação ferroviária, clique aqui. A foto abaixo é da estação no ano de 1940, do mesmo site citado anteriormente.

Imagino a bagunça dessa criançada, quando viajou de Taquaritinga para São Paulo, em 1915/1916, o casal mais nove crianças, sendo a mais velha com 14 anos e o bebê com alguns meses !! A primeira vez num trem, cerca de 350 quilometros, quase um dia de viagem ...


"O que mais ? Quase esquecia-me, um seu ancestral, o altíssimo maestro de música Aiéllo. Perdoa-me caro Dr. Hamilton, nesses dias de aniversário, a fim de suavizar as saudades que sinto, não tive outro recurso a não ser escrever essas linhas e felicitá-lo pelas belíssimas onomásticas de nossa bela, cada vez mais bela Taquaritinga. Muitas felicidades e muito agradecido, De V.S. ANTÔNIO CAPOZZI" 


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