"A tia Isabela, a qual você se referiu, era parente por
parte de mãe do nosso pai; uma tia de nosso pai se chamava ______ (em branco) ou seja a chamávamos de Mica sendo ela uma concertista de
piano e harpa. Veja se pode recordar-se ou talvez a sua mãe recorde
este fato."
Não descobri nada sobre a tia Isabela. Antônio Drammis teve ao todo 6 irmãos, entre eles Domenica Drammis, conhecida como Mica, provavelmente a irmã mulher mais velha, nascida em 1838, "foi enviada à Nápoles para estudar e frequentar a mesma escola das filhas do Rei ...ela tocava piano muito bem ... " foi prometida a um Marquês napolitano mas era apaixonada por um administrador de seu pai. Para saber mais sobre ela clique
aqui e
aqui.
"Lucrezia continua :
Beatrice, moça muito bonita e elegante era a rosa dos
Drammis, única filha mulher e portadora de uma grande cultura era a
maior amiga de seu irmão Ernesto, esse muito estouvado, devasso e
boêmio, se dedicava a todas as espécies de divertimento que muito
desgostava o seu pai. Beatrice sempre procurava cobrir a sua falta
esperando-o sempre até tarde da noite. Beatrice ao completar 22 anos
foi obrigada a casar-se com um nobre, coisa esta que era muito
tradicional naquele tempo, mas Beatrice revoltou-se contra a decisão
dos pais ocasionando-lhes grande desgosto. Nesta época conhece um
farmacêutico de nome Angelo Argala (me parecia que fosse lucchese) e
sem o consentimento paterno casaram-se e partiram para a América do
Norte."
O correto seria "partiram para a América e casaram-se". Angelo Agarla imigrou para os EUA em 1894, veja
aqui e Beatrice alguns anos depois, em 1903, veja
aqui. Casaram em 26 de setembro de 1903, alguns meses após sua chegada aos EUA, veja
aqui e tiveram três filhos. No seu Registro de Óbito,
aqui, consta como nascida em 29 de julho de 1881, teria portanto 22 anos quando imigrou.
"Este fato ocasionou um forte abatimento ao Barão Drammis e
decidiu não dar-lhe nada de sua herança mas ela não se importava
com isto e manteve sempre correspondência com seu irmão Guglielmo
(seu irmão mais novo) e de quem meu pai mais tarde obteve o endereço
da tia Beatrice ou Bigi como intimamente a chamávamos."
Guglielmo, assim como Beatrice e Ernesto, era filho não legítimo de Antônio Drammis. No entanto, ao contrário dos outros, foi reconhecido pelo pai como filho natural em 19 de julho de 1899. Ele nasceu em 24 de dezembro de 1886, tinha cerca de 10 anos de idade quando seu irmão Ernesto imigrou para o Brasil.
"Ernesto, filho legítimo do Barão Antônio Drammis,
deixou sua casa quando tinha cerca de 30 anos e sendo jovem,
inteligente e astuto era o orgulho e a esperança de seus pais na
continuação da tradicional família. Mas sempre dedicado a uma vida
boêmia cheia de vícios e mulheres, porém caridoso e nobre na
expressão da palavra coisa de que até hoje somos orgulhosos, teve
uma discussão com seu pai, ficando muito triste e influenciado por
más companhias abandonou tudo e todos partindo para o Brasil.
Passado certo tempo e sentindo-se corroer pelo remorso e com saudades
procurou retornar à Itália com o mesmo navio porém já era tarde
porque o vapor havia já deixado o porto e então veio a São Paulo e
onde se estabeleceu, sempre triste do que havia feito e nunca mais
deu notícias suas a sua família, como fez tia Beatrice sem nunca
revelar a sua verdadeira origem, escondendo também dos seus próprios
filhos.
O sobrenome Capozzi foi originado do seguinte: em 1896,
o barão não queria que Ernesto fosse chamado a fazer o Exército
porque possivelmente deveria ser mandado à África, justamente
porque naquela ocasião a Itália estava em guerra com Menelik e por
isto ele procurou fazer documento com o nome de Capozzi que era um
seu parente que não tinha nenhum filho. Assim, ele passou a assinar
como sendo Ernesto Capozzi e não Ernesto Drammis."
A Itália era nação recém unificada no final do séc. XIX ... Era país agrário e pobre que quis participar da colonização da África. Na época só a Etiópia e a Libéria eram países independentes, não colonizados. Foi pela Etiópia que a Itália começou sua expansão em solo africano. Em 1887, 7 mil etíopes massacraram cerca de 500 soldados italianos na
Batalha de Dogali. Talvez aí tenham começado as preocupações do pai do jovem Ernesto, que na época contava com 18 anos. Menelik II foi Rei da Etiópia entre 1889 e 1913, seu governo manteve relações tensas com a Itália por todo período.
Pessoalmente, penso que é mais fácil um filho de pai desconhecido
não ser convocado para o Exército do que o contrário. Não sei como era a legislação italiana da época.
Ernesto foi reconhecido
filho natural de Tommaso Capozza em março de 1889, com 19 anos de idade, em anotação feita à margem de seu registro de nascimento. No anterior era filho de pai "N.N." e levava o sobrenome de sua mãe, Marino e não Drammis.
Filho natural é o filho de pais não casados, também conhecida como filiação ilegítima, adulterina ou bastardia. Ou seja, Maria Giuseppa Marino e Tommaso Capozza não eram casados. Aqui no Brasil o termo não é usado desde 2003, sendo considerado difamatório e preconceituoso, tudo se simplificou com o exame genético.
"N.N." é "Nomen nescio", significa
não nomeado, leia mais
aqui
O Oficial do Registro Civil de Scandale, na época, era o próprio Barão Antônio Drammis.
"Ernesto vem ao Brasil com este nome arranjado e
firmou-se aqui constituindo a sua família.
Beatrice e Guglielmo estavam sempre com o pensamento em
nosso pobre pai e quando tia Beatrice preparava-se para vir
visitar-nos, morreu."
Beatrice faleceu aos 50 anos de idade, dia 30 de dezembro de 1931, veja
aqui . Ela era nascida dia 29 de julho de 1881. Era portanto 12 anos mais nova que seu irmão Ernesto Capozza.
"Guglielmo morreu em 1938 com 47 anos mas nós
escondemos este fato sempre do nosso pai porque ele estava muito
adoentado e não era conveniente. No entanto, poucos meses antes de
sua morte é que soube deste fato e isto certamente também
contribuiu para a proximidade de sua morte."
Guglielmo faleceu em 1938, mas contava com 51 anos de idade.
"Quanto a Carmino, o irmão Antônio teu velho conhecido,
me disse certa vez que você se referiu aos seus filhos que viviam em
uma outra parte e que não havia notícias.
Assim
Katie, a sua mãe adotando Moreno (Marino) e o pai de Capozzi
passaram a vida escondendo como se fosse um sonho ou talvez uma
história do tempo das fadas as aventuras de sua vida, sofrendo com
um sorriso e com grande nobreza de um coração este que não queria
revelar o que revelaram e que nós não havíamos nunca compreendido."
Beatrice e Ernesto tinham, além do mesmo pai, a mesma mãe. No Registro de Nascimento, a mãe de Ernesto Capozza é Maria Giuseppa Marino e o sobrenome de solteira de Beatrice também é Marino, veja
aqui.
Essa carta também se encontra no site de Sérgio Capozzi,
aqui