terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

OS OSSOS DO BARÃO SALVATORE DRAMMIS - parte 1



Abaixo, em marrom, a transcrição do texto recebido de Scandale (provavelmente por Mário Capozzi), em francês, com um pouco da história da família Drammis. Este texto também se encontra na Wikipedia. O original foi disponibilizado na postagem anterior. Acervo pessoal.

"Família dos barões Drammis - (da Itália) - Chefe atual - Barão Salvatore Drammis, oficial de SS Mauricio e Lázaro - condecorado com a medalha do Mérito Militar - Membro da Sociedade Economica de Catanzaro."
 "A família Drammis descende do Coronel Salvatore Drammis, que foi para a Itália quando da entrada dos espanhóis nesse país. Ele aí se estabeleceu e adquiriu as terras de Fota bem como o baronato que cabia as mesmas." 
"Todos os descendentes de Salvatore Drammis se distinguiram pelas suas virtudes sociais, sua inteligência e seu patriotismo." 
Os 3 primeiros parágrafos do texto são parte de uma pequena introdução. Depois o texto apresenta, em apenas um parágrafo, Nicola Drammis (1779-1830),  e o restante se estende principalmente sobre  Salvatore Drammis (1806-1884), pai de Antônio Drammis.

Quando fala  sobre o Chefe atual,  o texto esclarece que foi escrito no tempo do Barão Salvatore Drammis, pai de Antônio, Barão entre entre os anos 1830 e 1884. Segundo o pesquisador Luigi Santoro, o texto foi escrito em 1864.

O Coronel Salvatore Drammis, a que se refere o segundo parágrafo do texto, provavelmente não é o Salvatore pai de Antônio, já que este nasceu, viveu e faleceu na Itália, veja na árvore acima.

Entre 1503 e 1707, a Calábria esteve sob domínio espanhol. Entre 1707 e 1734
sob domínio austríaco. Entre 1734 e 1860 esteve sob domínio dos Bourbon, com domínio francês entre 1806-1816. Daqui. O atual rei da Espanha, Felipe VI, é o chefe da Casa de Bourbon de Espanha.

Outro ponto que não pode ser esquecido sobre a "entrada dos espanhóis nesse país" é a diáspora de judeus sefarditas (espanhóis) ocorrida entre os sécs. XV e XVII para a península italiana, leia aqui.


A última frase deste trecho, "Ele aí se estabeleceu e adquiriu as terras de Fota bem como o baronato que cabia as mesmas", nos sugere algumas perguntas, que tentaremos responder: Que terras seriam essas, quando teriam comprado, que atividade exerciam antes de serem latifundiários e como teriam comprado essas terras.



A família Drammis teria comprado terras em Scandale: Fota e San Leone-Galloppa. Mas que terras seriam essas ? 

Fota e San Leone são terras que, atualmente, pertencem ao municipio de Scandale.
"De acordo com documentos obtidos por vários historiadores, Fota estava na posse do Barão Nicholas Pietro Cutro ... em 1772. Mais tarde ele vendeu as terras para Raffaelle del Fiore em 1798 que teve posse definitiva em 1801.  San Leone ... em 1743, era posse do Príncipe Pier Mathia Gruther." Daqui.
No início do séc. XIII as terras de San Leone pertenciam ao feudo da família Pristera, no final do séc. XIII, juntamente com as terras de Scandale, era parte do feudo dos irmãos Berlingerio e Giordano Sanfelice.

Nessas terras, levantou-se, em data não conhecida, uma pequena igreja, Diocese de San Leone, anteriormente conhecida como Leonia. Ela foi fundada pelos bizantinos e elevada a bispado pelo patriarca de Constantinopla. Da igreja de San Leone desapareceram até as  ruínas.

Em San Leone, próximo à antiga estrada que ligava Scandale e Crotone, o Barão Nicola Drammis construiu, na primeira  metade do séc. XIX, um palazzo, e à direita do portão, no muro, colocou uma pequena placa, que dizia:


"Fermati e versa lacrime
Leonia que fu
attento, attento, mirala
ah! la ravvisi tu ?
Si,si,Nicola Drammis
l'ombra ne rinnovò"


Acima a entrada da Fazenda Leonia na colina Galloppa perto de Scandale, construída pelo Barão Nicola Drammis sobre as ruínas da Diocese San Leone, na primeira metade do séc. XIX. Foto daqui. Mais sobre a Diocese San Leone aqui e aqui.

Em data não conhecida, a família Drammis, empobrecida, passou as terras de Leone-Galloppa para o Barão Zurlo de Crotone, a quem pertencem ainda hoje, leia aqui

Quando o Barão comprou essas terras ?

Desde os últimos anos do séc XVIII, Napoleão Bonaparte tentava aumentar seus domínios na Europa.  Em 1806, após já ter tomado o norte da Itália, sua Armée marchou sobre o Reino de Nápoles. Quer saber mais ? Clique aqui.
"Em 15 de fevereiro (de 1806), de fato, Joseph Bonaparte, irmão mais velho de Napoleão, entrou em Nápoles comandando um Corpo da Armée franco-italiana (com soldados do norte da Itália, já dominado) que depois de derrotar as tropas de Bourbon (do anterior Rei de Nápoles, Ferdinand IV) em Campo Tenese, tomou posse de toda parte continental do Reino (excluindo-se a Fortaleza de Gaeta, a cidadela de Tronto e o extremo sul da Calábria, que continuaram resistindo ao assédio francês por muito tempo)." Daqui.
Em 26 de Julho de 1806, a cidade de Scandale respondeu negativamente ao pedido de provisões feitas pela Armée francesa comandada pelo general Reynier. Este último,  enviou a cavalaria e infantaria sob o general Berthier saquear a cidade. A cidade foi incendiada, segundo Reyner, pelos próprios scandaleses (essa prática era comum para evitar os saques e principalmente a alimentação dos soldados inimigos). No confronto que se seguiu, 25 scandaleses morreram e um número desconhecido de soldados franceses.

Joseph Bonaparte, o novo Rei de Nápoles, decretou o fim do feudalismo. A partir daí a família Gruther,  senhores de Scandale desde 1691,  perdeu todos os bens, surgindo a oportunidade da família Drammis comprar as terras, formando o seu primeiro latifúndio.
" .... a hipótese é que Drammis tenha comprado essas duas propriedades (Fota e San Leone-Galloppa) no início do séc. XIX por um preço vantajoso."  
Como teriam comprado essas terras ? 

Para comprar um latifúndio é necessário dinheiro, mas quem tinha dinheiro naquela época, além da nobreza não falida ?


1. Em primeiro lugar a burguesia, mercadores, comerciantes, artesãos refinados, banqueiros ... burguesia que mais e mais penetrava na zona rural, comprando terras de nobres empobrecidos.

2. Depois os burocratas monárquicos, altos funcionários que atendiam a nobreza.


3. Por mais incrível que possa parecer, alguns camponeses livres, assalariados, que recebiam o pagamento em dinheiro e vendiam o excedente de sua produção pessoal em feiras.


4. O texto que estamos explorando, diz que "A família Drammis descende do Coronel Salvatore Drammis", provavelmente ancestral de Nicola Drammis (1779-1830). A familia teria algum vínculo com a vida militar ? (A pesquisar).


5. Existiu uma outra possibilidade de enriquecimento de scandaleses no final do séc. XVIII. Numa sucessão sem fim de copia-cola, vários sites nos contam que ...

"Essendo il paese filoborbonico, nel 1799 gli scandalesi furono i  primi ad unirsi all'essercito della santafede del Cardinale Fabrizio Ruffo: dopo aver assaltato Crotone, molti lo seguirono fino a Napoli"
 ou então 
"nel periodo della spedizione del Cardinale Fabrizio Ruffo, nella primavera del 1799, gli scandalesi furono molto attivi sia nell'assedio di Crotone,che nella confisca dei beni dei cosidetti giacobini. A queste confische risale l'arricchimento di molte famiglie scandalesi".
Resumidamente, Napoleão Bonaparte invadiu a península itálica até o sul e empurrou o Rei de Nápoles, Ferdinand IV, para a Sícilia. Na Sicília, o Cardeal Fabrizio Ruffo, pró Ferdinand, organizou um exército, atravessou o Canal de Messina, foi arregimentando voluntários, em sua maioria camponeses, chegando a ter 25.000 homens. Invadiu, saqueou e retomou Crotone e começou uma bem sucedida reconquista de Nápoles. Tudo bem que durou pouco tempo, em 1806  Napoleão tinha tudo novamente dominado.

Esse, um resumo da história do Cardeal Fabrizio Ruffo e de como alguns scandelesi enriqueceram saqueando a Crotone francesa.

Enfim, o que será que faziam os Drammis antes de serem latifundiários ??

Concluindo, os primeiros Drammis chegaram à Calábria antes de 1743, provavelmente no séc. XVII, Pelas datas apresentadas, adquiriram as terras de Fota e San Leone, e o consequente  baronato, apenas no início do séc. XIX, provavelmente após 1806, algumas gerações depois de terem chegado. O comprador e primeiro Barão deve ter sido Nicola Drammis (marido de Domenica Orsini). Foram proprietários dessas terras por todo o séc. XIX.

Mas de onde teriam vindo ?? De que parte da Espanha ??  Não descobri, a pesquisar. Minha avó Luiza, tem um pé na Espanha pelo lado de sua mãe Agnesa e também pelo lado de seu pai Ernesto !!  :D

Fota pelo Google StreetView


Fontes:


Site do município de Scandale, aqui.

Site do Archivio Storico di Crotone, aqui e aqui





terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

OS OSSOS DO BARÃO SALVATORE DRAMMIS - Os originais

Carta manuscrita, com pequena árvore genealógica, recebida de Scandale por um dos irmãos Capozzi (provavelmente Mário) entre os anos de 1950 e 1960. O texto está em francês, com um pequeno bilhete no verso. Nas postagens seguintes apresentarei a tradução com comentários. Segundo boatos intercontinentais, essa cópia é rara, não tendo sobrevivido nem mesmo  na Itália ...

 O pesquisador scandalese Luigi Santoro afirma que esse documento é transcrição de parte do original em francês. Esse original foi escrito a pedido de Salvatore Drammis em 1864, e possuía duas partes, sendo uma delas a que está disponibilizada abaixo. O documento completo (em italiano) está publicado na Wikipedia.

Em 1943 dois netos de Antônio Drammis, filhos de Guglielmo (Antônio e Guglielmo) providenciaram a tradução da íntegra do documento para o italiano, foi essa tradução sobreviveu na Itália, o original em francês desapareceu, veja aqui.

Esse texto, datilografado e em italiano, também se encontra no site de Sérgio Capozzi, aqui.



Manderó in seguito al tuo nome il ricordino promesso, perche attualmente della Italia non se possono fare spedizione per l'America del Sud.

Vou enviar-lhe mais tarde  em teu nome a lembrança prometida, porque atualmente da Itália não se pode ir para a América do Sul.






terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

UM FEUDO CHAMADO SCANDALE


A família de Ernesto Capozza era  de Scandale (KR), Itália, na Calábria.


Scandale >> Santa Severina = 12,7 km.,
Scandale >> Fota = 4,9 km.,
Scandale >> Crotone = 21 km.


Parte do mapa (maravilhoso !!!), feito após a entrada de Joseph Bonaparte na Itália, da Coleção de David Rumsey. Vale a pena perder um tempo nesse mapa, fruto de um trabalho de 20 anos, realizado entre 1788 e 1812, são 31 pranchas que juntas compõe o Reino de Nápoles, desenhadas por Rizi Zannoni. É ótimo para identificar vilas e vilarejos que atualmente foram abandonados e desapareceram.

Scandale era um feudo. Andrea Caraffa ganhou, por serviços prestados, as terras de Santa Severina mais algumas terras vizinhas, entre elas as de Scandale e San Mauro. Em 1526, morreu sem deixar filhos. Seu sobrinho Galeotto Carafa herdou a propriedade.

Scandale foi fundada pelo conde Galeotto Carafa de Santa Severina, sobre uma colina popularmente conhecida como Gaudioso.

Era uma vila pequena, em 1561 viviam nesta comunidade 25 famílias de origem albanesa e uma de origem italiana. No início era conhecida pelo nome da colina, Gaudioso, mas no final do séc. XVI já passou a ser conhecida pelo nome atual, Scandale. 

Depois da morte de Galeotto Carafa, numa sucessão de leilões e arremates, a propriedade passou para Vicenzo Ruffo.

Posteriormente, os povoados de San Mauro e Scandale foram comprados por um nobre de Crotone, o Duque Carlo Sculco que em 1599 torna-se Senhor da cidade de Santa Severina. Em 1687, com a morte do Duque Domenico Sculco, as propriedades foram assumidas por Antônio Grutther.

É sob domínio de Antônio Grutther que algumas vilas se tornaram livres, coisa que  os senhores feudais tentavam evitar de todas as maneiras possíveis. Nesse período o número de feudos se multiplica, sempre sob o controle de poucos Senhores, por meio de leilões de compra e venda de terras. Nasceram, assim, novas baronias ligadas sobretudo a um fundo (terras), cuja compra dava o direito de titulação. Surgiram, também, nesse período, pequenos proprietários de terra, agricultores, arrendatários e colonos que cultivavam a terra arrendada do Senhor.

Foi nessa época que surgiu a prática da parceria (meação) ou agricultura por contrato,  onde uma pessoa proprietária de um fundo, terras (o concedente) e um camponês (o meeiro) decidem se unir para cultivarem juntos as terras e dividirem os lucros e os produtos da terra. Esse foi o sistema usado nas fazendas de café paulistas, para onde foram grande parte dos imigrantes italianos.

O proprietário disponibiliza a fazenda, ou seja, o terreno e as casas de colonos, enquanto o camponês (meeiro) oferece a experiência e o trabalho próprio e de sua família. Essa prática permitiu um lento desenvolvimento, sobretudo agrícola, da região, e a erradicação total do feudalismo. Essa prática continuou até os anos de 1950.

 Após o fim do feudalismo, decretado por Joseph  Bonaparte em 1806, quase todo o território em torno de Scandale passou para os Barões Drammis, proprietários da área ao longo do século XIX.

Em suma, o território de Santa Severina, junto com San Mauro e Scandale, pertenciam ao Ducado de Santa Severina. Abaixo uma tabela com os senhores feudais de Scandale, de acordo com documentos do Arquivo de Nápoles, (daqui):

Gaudioso - ano 1557 - Andrea Carafa
Gaudioso - ano 1616 - Giovanna Ruffo
Scandale -  ano 1616 - Giovanna Ruffo
Scandale -  ano 1654 - Carlo Sculco de Crotone
Scandale -  ano 1656 - Andrea Sculco
Scandale -  ano 1674 - Domenico Sculco
Scandale -  ano 1675 - Domenico Sculco
Scandale - ano 1691 - Antonio Grutther

Scandale, sem data, daqui

OS PRIMEIROS DRAMMIS EM SCANDALE

O pesquisador Luigi Santoro, diz que desde o séc. XVII  se encontra o sobrenome Drammis em Scandale.   "O primeiro documento oficial que fala de uma ou mais famílias Drammis ... é de 1743, onde além de um Salvatore Drammis ... aparece Domenico Drammis, sacerdote de 34 anos, que reside em uma casa própria de dois quartos com os irmãos Antônio e Niccolò." Daqui.

Somente no início do séc. XIX, a família Drammis adquiriu terras nas cercanias de Scandale, sobre isso falaremos em outro artigo.
"Após a unificação da Itália em 1861, o território de Scandale era propriedade e administrado pelos Barões Drammis, Zurlo e Bellingeri que davam as terras para o povo (camponeses) cultivar e recebiam o pagamento ou em dinheiro ou em colheita. Esse sistema terminou nos anos de 1950, quando o governo italiano iniciou um programa conhecido como "Opera Valorizzacione Sila" (reforma agrária). As terras presumivelmente pertencentes aos Barões foram confiscadas e dadas ao povo que pagou ao governo em pequenas parcelas durante 30 anos. Como resultado desse programa ... cresceu uma pequena vila, chamada Corazzo, onde vivem quase 150 famílias." Lincoln
A baronia Drammis em Scandale:

1806 - Nicola Drammis, provavelmente o primeiro Barão
1830 - faleceu Nicola. Viva Salvatore, filho de Nicola, o novo Barão
1884 - faleceu Salvatore. Viva Nicola, filho de Salvatore, o novo Barão
1899 - faleceu Nicola. Viva Antônio, irmão de Nicola, o novo Barão
1910 - faleceu Antônio. Viva Guglielmo, filho de Antônio e meio-irmão de Ernesto, o novo Barão

Você sabia que Scandale possuía um dialeto próprio ? Leia aqui, a dissertação de Lincoln.

Fontes:


Site do município de Scandale, aqui.

Site do Archivio Storico di Crotone, aqui e aqui



Wikipedia

LINCOLN, N. J. A phonological study of the dialect of Scandale. 1970. Tese de Doutorado. Simon Fraser University, online aqui.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

ERNESTO E BEATRICE




Carta sem data, acredito que década de 1950/1960, provavelmente de Mário Capozzi para sua prima Katie (Katryn), filha mais velha da irmã de seu pai, Beatrice Marino Agarla. Original em italiano, traduzido por Cleibe Ferreira. Com comentários. É longo, mas interessante ....


"HISTÓRICO DA FAMÍLIA “DRAMMIS" 
Como poderá ver a família Drammis é original da Espanha e temos como avô o Barão Antônio, filho de Salvatore.
Até 1924 nosso pai Ernesto nunca se manifestou com respeito à sua família. Quando nós lhe perguntávamos alguma coisa, ele sempre nos respondeu que não tinha parentes e que seus pais eram varredores de rua. Infelizmente à nossa insistência em querer saber algo se seus parentes ele negava terminantemente a se enredar sobre este tema, mantendo-se em um mutismo difícil de compreender. 
Em certo dia de 1924, no entanto, começou a conversar um pouco sobre este mistério da seguinte maneira:
Tendo ido dar um passeio quando voltou percebemos que chorava, mas assim mesmo negou-se a dizer o motivo. Certo dia, porém, veio visitar-nos uma senhora com uma idade já bem avançada e disse ser natural da Calábria e ela começou o relato.
Disse ter um dia visto nosso pobre pai em uma rua da cidade e quando o viu imediatamente o reconheceu, o chamou e aproximando-se o abraçou, exclamando : “Oh! Meu Deus, é você Ernesto!”. Papai quis negar e lhe disse que talvez fosse um erro mas ela replicou que o conhecia muito bem e que ela o havia criado na sua infância e na sua adolescência e então papai não teve mais força de negar, confessando ser ele. 
Nós ficamos muito emocionados com papai depois que esta gentil senhora nos narrou os profundos desgostos e a morte de nosso pobre avô que foi em 1910.
Esta senhora se chamava Lucrezia Talarico e conforme as suas declarações e de papai ficamos sabendo o seguinte da família Drammis, relacionadíssima e da fina flor da sociedade, nobre e rica do sul da Itália, tendo como chefe no seu tempo o Barão Antônio Drammis, pai legítimo de Ernesto, Beatrice e Guglielmo e sendo sua mãe Maria José, tendo estes sido criados no meio da abundância e portadores de fina educação.
O nosso avô Drammis era casado em segundo matrimônio não havendo desta união nenhum herdeiro mas tinha um filho de criação o qual se chamava Carmino que foi tratado e educado como os filhos legítimos."
Até onde pesquisei Antônio Drammis teve dois relacionamentos não oficiais, não legitimados. O primeiro com Maria Giuseppa Marino, com quem teve os filhos Ernesto Capozza (nascido em 1869) e Beatrice Marino (nascida em 1881). O segundo relacionamento foi com Filomena Macri, com quem teve o filho Guglielmo Drammis (nascido em 1886, reconhecido como filho natural em 1899). Carmino deve ter sido criado pela família (veja no quadro acima). Antônio faleceu em 1910 e sua segunda companheira, Filomena Macri, faleceu em 1928.

    

"A tia Isabela, a qual você se referiu, era parente por parte de mãe do nosso pai; uma tia de nosso pai se chamava ______ (em branco) ou seja a chamávamos de Mica sendo ela uma concertista de piano e harpa. Veja se pode recordar-se ou talvez a sua mãe recorde este fato." 
Não descobri nada sobre a tia Isabela. Antônio Drammis teve ao todo 6 irmãos, entre eles Domenica Drammis, conhecida como Mica, provavelmente a irmã mulher mais velha, nascida em 1838, "foi enviada à Nápoles para estudar e frequentar a mesma escola das filhas do Rei  ...ela tocava piano muito bem ... "  foi prometida a um Marquês napolitano mas era apaixonada por um administrador de seu pai. Para saber mais sobre ela clique aqui  e aqui.
"Lucrezia continua :

Beatrice, moça muito bonita e elegante era a rosa dos Drammis, única filha mulher e portadora de uma grande cultura era a maior amiga de seu irmão Ernesto, esse muito estouvado, devasso e boêmio, se dedicava a todas as espécies de divertimento que muito desgostava o seu pai. Beatrice sempre procurava cobrir a sua falta esperando-o sempre até tarde da noite. Beatrice ao completar 22 anos foi obrigada a casar-se com um nobre, coisa esta que era muito tradicional naquele tempo, mas Beatrice revoltou-se contra a decisão dos pais ocasionando-lhes grande desgosto. Nesta época conhece um farmacêutico de nome Angelo Argala (me parecia que fosse lucchese) e sem o consentimento paterno casaram-se e partiram para a América do Norte."
O correto seria "partiram para a América e casaram-se". Angelo Agarla imigrou para os EUA em 1894, veja aqui e Beatrice alguns anos depois, em 1903, veja aqui.  Casaram em 26 de setembro de 1903, alguns meses após sua chegada aos EUA, veja aqui e tiveram três filhos. No seu Registro de Óbito, aqui, consta como nascida em 29 de julho de 1881, teria portanto 22 anos quando imigrou.
"Este fato ocasionou um forte abatimento ao Barão Drammis e decidiu não dar-lhe nada de sua herança mas ela não se importava com isto e manteve sempre correspondência com seu irmão Guglielmo (seu irmão mais novo) e de quem meu pai mais tarde obteve o endereço da tia Beatrice ou Bigi como intimamente a chamávamos."
Guglielmo, assim como Beatrice e Ernesto, era filho não legítimo de Antônio Drammis. No entanto, ao contrário dos outros, foi reconhecido pelo pai como filho natural em 19 de julho de 1899. Ele nasceu em 24 de dezembro de 1886, tinha cerca de 10 anos de idade quando seu irmão Ernesto imigrou para o Brasil.
"Ernesto, filho legítimo do Barão Antônio Drammis, deixou sua casa quando tinha cerca de 30 anos e sendo jovem, inteligente e astuto era o orgulho e a esperança de seus pais na continuação da tradicional família. Mas sempre dedicado a uma vida boêmia cheia de vícios e mulheres, porém caridoso e nobre na expressão da palavra coisa de que até hoje somos orgulhosos, teve uma discussão com seu pai, ficando muito triste e influenciado por más companhias abandonou tudo e todos partindo para o Brasil. Passado certo tempo e sentindo-se corroer pelo remorso e com saudades procurou retornar à Itália com o mesmo navio porém já era tarde porque o vapor havia já deixado o porto e então veio a São Paulo e onde se estabeleceu, sempre triste do que havia feito e nunca mais deu notícias suas a sua família, como fez tia Beatrice sem nunca revelar a sua verdadeira origem, escondendo também dos seus próprios filhos.

O sobrenome Capozzi foi originado do seguinte: em 1896, o barão não queria que Ernesto fosse chamado a fazer o Exército porque possivelmente deveria ser mandado à África, justamente porque naquela ocasião a Itália estava em guerra com Menelik e por isto ele procurou fazer documento com o nome de Capozzi que era um seu parente que não tinha nenhum filho. Assim, ele passou a assinar como sendo Ernesto Capozzi e não Ernesto Drammis."
A Itália era nação recém unificada no final do séc. XIX ... Era país agrário e pobre que quis participar da colonização da África. Na época só a Etiópia e a Libéria eram países independentes, não colonizados.  Foi pela Etiópia que a Itália começou sua expansão em solo africano. Em 1887, 7 mil etíopes massacraram cerca de 500 soldados italianos na Batalha de Dogali. Talvez aí tenham começado as preocupações do pai do jovem Ernesto, que na época contava com 18 anos. Menelik II foi Rei da Etiópia entre 1889 e 1913, seu governo manteve relações tensas com a Itália por todo período.

Pessoalmente, penso que é mais fácil um filho de pai desconhecido não ser convocado para o Exército do que o contrário. Não sei como era a legislação italiana da época.

Ernesto foi reconhecido filho natural de Tommaso Capozza em março de 1889, com 19  anos de idade, em anotação feita à margem de seu registro de nascimento. No anterior era filho de pai "N.N." e levava o sobrenome de sua mãe,  Marino e não  Drammis.
Filho natural é o filho de pais não casados, também conhecida como filiação ilegítima, adulterina ou bastardia. Ou seja, Maria Giuseppa Marino e Tommaso Capozza não eram casados. Aqui no Brasil o termo não é usado desde 2003, sendo considerado difamatório e preconceituoso, tudo se simplificou com o exame genético.
"N.N." é "Nomen nescio", significa não nomeado, leia mais aqui
O Oficial do Registro Civil de Scandale, na época, era o próprio Barão Antônio Drammis.

"Ernesto vem ao Brasil com este nome arranjado e firmou-se aqui constituindo a sua família.

Beatrice e Guglielmo estavam sempre com o pensamento em nosso pobre pai e quando tia Beatrice preparava-se para vir visitar-nos, morreu."
Beatrice faleceu aos 50 anos de idade, dia 30 de dezembro de 1931, veja aqui . Ela era nascida dia 29 de julho de 1881. Era portanto 12 anos mais nova que seu irmão Ernesto Capozza.
"Guglielmo morreu em 1938 com 47 anos mas nós escondemos este fato sempre do nosso pai porque ele estava muito adoentado e não era conveniente. No entanto, poucos meses antes de sua morte é que soube deste fato e isto certamente também contribuiu para a proximidade de sua morte."
Guglielmo faleceu em 1938, mas contava com 51 anos de idade.
"Quanto a Carmino, o irmão Antônio teu velho conhecido, me disse certa vez que você se referiu aos seus filhos que viviam em uma outra parte e que não havia notícias.

Assim Katie, a sua mãe adotando Moreno (Marino) e o pai de Capozzi passaram a vida escondendo como se fosse um sonho ou talvez uma história do tempo das fadas as aventuras de sua vida, sofrendo com um sorriso e com grande nobreza de um coração este que não queria revelar o que revelaram e que nós não havíamos nunca compreendido."
Beatrice e Ernesto tinham, além do mesmo pai, a mesma mãe. No Registro de Nascimento, a mãe de Ernesto Capozza é Maria Giuseppa Marino e o sobrenome de solteira de Beatrice também é Marino, veja aqui.

Essa carta também se encontra no site de Sérgio Capozzi, aqui



terça-feira, 19 de janeiro de 2016

A VIAGEM DE ERNESTO CAPOZZA




Porto de Nápoles, final do séc. XIX, daqui.

Meu único ancestral que não descobri o navio de chegada !

Ernesto Capozza não se alojou na Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo por ocasião de sua chegada ao BrasiL. Então, provavelmente, ele imigrou espontaneamente, pagando sua passagem  e não através da Sociedade Promotora de Imigração. Isto  dificulta a pesquisa nas listas desembarque no porto de Santos, que deverão ser olhadas uma a uma ... mais ou menos como procurar uma agulha no palheiro. Alguns pesquisadores consideram caso perdido encontrar o desembarque de imigrantes que não pararam na Hospedaria.

Em todo o caso, as listas de desembarque no porto de Santos, estão disponíveis para consulta aqui.

Antônio Capozzi, em carta ao jornal Cidade de Taquaritinga no ano de 1981 (na integra aqui), conta que o pai Ernesto teria imigrado da Itália, em 1896 em companhia de seu amigo Giacomino Pagliuso. Veja abaixo:


No entanto, corre pela família, que Ernesto teria imigrado a chamado de um amigo e não em companhia dele.

De fato, Giacomino Pagliuso imigrou aos 29 anos de idade, chegou em 21 de setembro de 1891 com um irmão e um sobrinho, indo para a cidade de Ribeirãozinho (Taquaritinga), veja aqui. Era nascido em Cosenza (100 km de Scandale) em 1862. Para saber mais sobre Giacomino Pagliuso, clique  aqui. Abaixo foto de Giacomino do livro Cem anos de Tradição de Luiz Carlos Beduschi.  Em 1891, Ernesto Capozza ainda estava em Scandale.


Alguns anos depois chegaram Seraphina e Arthur Pagliuso, mulher e filho de Giacomino, veja aqui. Também ela não se alojou na Hospedaria dos Imigrantes.  Penso na possibilidade de Ernesto Capozza, Seraphina e Arthur terem vindos juntos da Itália (informação corrente na família de Ernesto, a confirmar).

Em 1896, Giacomino Pagliuso morava em Ribeirãozinho. Nesse ano, a Câmara de Vereadores da cidade, propôs o nome da rua Bernardino Sampaio (centro) na Ata de 17 de dezembro.
 "... a rua que atravessa o largo da Matriz onde estão as casas de José Domingues da Silva, Jacomino Palhuço e Manoel Machado, rua Bernardino Sampaio ... " leia aqui
Então, provavelmente assim que chegou em  Ribeirãozinho, Ernesto se instalou na casa de seu amigo Giacomino na rua Bernardino Sampaio.

Em 1906, o Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial cita um Giacomino Pagliuso, fazendeiro em Taquaritinga, veja aqui.  Será que era ele o proprietário da Fazenda Grama em que viveu Ernesto com a família?? (a pesquisar).

Giacomino deixou Taquaritinga em 1917; Ernesto, neste mesmo período, entre 1915-1917. Coincidência ? Ou não ? (a pesquisar).









terça-feira, 12 de janeiro de 2016

ERNESTO CAPOZZA

Passamos agora a falar um pouco sobre a família de meu bisavô paterno, Ernesto Capozza...


Ernesto é filho de Maria Giuseppa Marino. Nasceu em Scandale na Calábria dia 16 de maio de 1869, na Contrada Argiro em Scandale. Foi registrado no 1º Ufficio dello Stato Civile de Scandale, em 1869, parte I, série A, registro nº 27, com o nome de Ernesto Adolfo Alberto Marino. Em março de 1889, em anotação à margem, Tommaso Capozza assume Ernesto como filho natural (fruto de relação não oficializada), que passa, então, a se chamar Ernesto Adolfo Alberto Capozza. Na época o ufficiale dello Stato Civile era Antônio Drammis, veja o registro aqui.

Ernesto imigrou para o Brasil perto de 1896 e foi para Taquaritinga-SP. Casou perto de 1900, teve filhos, mudou para a cidade de São Paulo-SP, trabalhou, teve mais filhos. Faleceu em São Paulo-SP, dia  16 de julho de 1947, aos 78 anos de idade, vítima de broncopneumonia e colapso cardíaco, tendo sido sepultado no Cemitério do Brás, veja o registro aqui.



Para saber sobre a vida profissional de Ernesto, clique aqui.

Para saber sobre a mulher de Ernesto, Agnesa Siggia, clique aqui.

Para saber sobre os filhos de Ernesto Capozza e Agnesa, clique aqui e aqui.

A história familiar de Ernesto é conturbada e bastante interessante. No Registro de Nascimento  ele é filho de Maria Giuseppa Marino. Quando tinha 19 anos de idade, Tommaso Capozza o assumiu como filho,  pessoa por quem, com certeza, Ernesto nutria carinho especial, já que nomeou um de seus filhos, Thomas. No entanto, consta que era filho biológico de Antônio Drammis (futuro Barão Drammis).

Em genealogia, no caso de adoção, procura-se trabalhar com os dois ramos de família, o da família biológica e o da família adotiva.

Tommaso Capozza:

Não encontrei muitas informações sobre Tommaso, pai adotivo de Ernesto Capozza. No Registro de Nascimento de Ernesto, o pai é "Tommaso Capozza fu Francesco", ou seja, Tommaso filho de Francesco Capozza. Em outro documento consta que Tommaso era vivo em 1891, ou seja, faleceu após essa data.


Tommaso era próximo à família Drammis. Ele foi declarante do óbito de uma tia de Antônio Drammis, a senhora Simone Drammis, filha de Nicola e Domenica Orsini, ocorrido em 3 de novembro de 1867. Na ocasião, Tommaso informou ter 30 anos de idade (portanto nascido perto de 1837) e ser de profissão cameniere, ou seja, garçom ou empregado de mesa, provavelmente Tommaso trabalhava na propriedade da família.


Numa carta trocada entre os primos Mário Capozzi e Katie Marino  encontramos que Tomasso Capozza era aparentado com os Drammis. Postarei a carta na integra em outro artigo.


Maria Giuseppa Marino:

Também não encontrei informações sobre sua mãe Maria Giuseppa Marino, apenas uma parente, tia Isabela, talvez Marino.  Será irmã de Maria Giuseppa ?

Assim como muitas sicilianas da família de Agnesa (Inês) Siggia, Maria Giuseppa Marino era filatrice (fiandeira) por profissão. Ela  faleceu entre 1881 e dezembro de 1891. Residia na cidade de Nicastro, Calábria, cerca de 100 km. de Scandale.

A maior dificuldade em tentar construir essa árvore genealógica é a falta de documentos. Na pesquisa em microfilmes do  Registro Civil de Scandale existem muitos e molti registri mancano. De todos os livros que pesquisei, civis ou religiosos, essa foi a cidade com mais falhas!

Mesmo na web é dificil encontrar informações. Consta que em 1961, o diretor Renato Castellani rodou o filme "Il Brigante" na região e no Palazzo Drammis, e que para evidenciar o realismo das filmagens  queimou muitos dos documentos da família, leia mais aqui.

Antônio:

Segue a árvore genealógica possível do único ancestral de Ernesto Capozza conhecido, seu pai biológico, Antônio.


Algumas dessas escassas informações são pessoais, outras são daqui, outras ainda daqui. Os filhos de Nicola Drammis e Domenica Orsini não estão necessariamente em ordem de nascimento (numeração preta), assim como os filhos de Salvatore e Mariangela Fazio (numeração vermelha). Dos filhos de Antônio Drammis: Carmino e Beatrice imigraram para os EUA, Ernesto para o Brasil, Guglielmo continuou na Itália onde fez família e descendentes.

Obrigada Seomara Capozzi pelos registros de Ernesto e obrigada Sérgio Capozzi pelo santinho !